A memória como resistência: Egydio Schwade apresenta uma obra fundamental sobre o indigenismo no Brasil

O lançamento do livro Memórias das lutas para construir um indigenismo encarnado, do renomado indigenista brasileiro Egydio Schwade, virou um espaço de reflexão sobre a memória histórica, a defesa dos povos indígenas e o compromisso da Igreja com a justiça e o cuidado com a Casa Comum. A obra reúne mais de seis décadas de experiência acompanhando os povos indígenas e é uma contribuição valiosa para entender a construção do indigenismo contemporâneo no Brasil.

O evento de lançamento rolou no dia 7 de julho, no Auditório do Sebrae, em Presidente Figueiredo (Manaus, Amazonas, Brasil), com a participação de representantes da Igreja, organizações indígenas, instituições acadêmicas e agentes pastorais. A Região Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi representada por Mons. Zenildo Lima, bispo auxiliar de Manaus.

Na ocasião, o cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo metropolitano de Manaus, presidente da Região Norte 1 da CNBB e presidente da CEAMA, mandou uma mensagem de reconhecimento e gratidão a Egydio Schwade pela vida que ele dedicou ao acompanhamento dos povos indígenas e pela contribuição dele para a construção da memória das lutas desses povos. Sua mensagem destacou a importância de preservar essa memória como um caminho para fortalecer o compromisso com a dignidade dos povos amazônicos e a defesa de seus direitos.

Um testemunho de mais de sessenta anos de compromisso

Publicado pela Alexa Cultural, o livro reúne memórias, reflexões e análises que traçam a trajetória de Schwade como uma das principais figuras do indigenismo brasileiro. A partir de sua experiência, o livro documenta momentos decisivos na consolidação de um modelo de acompanhamento próximo aos povos indígenas, profundamente marcado pelo diálogo, pelo respeito e pela defesa de seus direitos.

Os textos abordam a renovação do indigenismo no Brasil, a relação entre a Igreja Católica e os povos indígenas, o surgimento do movimento indígena e das organizações de apoio aos povos originários, bem como as consequências sociais, culturais e ambientais decorrentes dos grandes projetos de desenvolvimento implementados na Amazônia.

A publicação também analisa as tensões entre as políticas públicas e as realidades das comunidades amazônicas, evidenciando processos de degradação ambiental, exclusão social e perda cultural que marcaram diferentes momentos da história recente do país.

Como o próprio autor destaca, a obra nasce da convicção de que preservar a memória das lutas fortalece a esperança e inspira as novas gerações na defesa da vida, dos territórios e dos direitos dos povos indígenas.

Uma referência do indigenismo brasileiro

O livro é um registro histórico sobre a construção das políticas e das iniciativas de defesa dos povos indígenas no Brasil. Por meio de suas memórias, Egydio Schwade oferece uma visão privilegiada sobre a criação de instituições e movimentos que hoje continuam promovendo os direitos territoriais, culturais e humanos dos povos originários.

Recentemente homenageado com o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pela Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Schwade participou da criação de organizações que marcaram a história do indigenismo brasileiro, entre elas a Operação Amazônia Nativa (OPAN), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), o Movimento de Apoio à Resistência Waimiri-Atroari (MAREWA), a Casa da Cultura Urubuí (CACUI) e o Comitê Estadual do Amazonas pelo Direito à Verdade, à Memória e à Justiça.

Sua trajetória esteve intimamente ligada à defesa do povo Waimiri-Atroari, tornando-se uma referência nacional na documentação de violações dos direitos humanos e na promoção de processos de solidariedade e resistência ao lado dos povos indígenas da Amazônia.

Memória para construir o futuro

Durante o lançamento, também foi exibida uma prévia do documentário “O Silêncio dos Kiña”, uma produção que resgata as memórias e os traumas vividos pelo povo Waimiri-Atroari durante o processo de contato com a sociedade não indígena. O documentário complementa o espírito da publicação, contribuindo para preservar a memória histórica e dar visibilidade às consequências da violência sofrida pelos povos indígenas.