Santidade e missão: Dom Joaquín Pinzón propõe uma ética do “bom viver” para cuidar da Amazônia

A missão nasce de uma profunda experiência de santidade e se expressa no compromisso concreto com a vida, os povos e a Casa Comum. Essa é a reflexão que o Mons. Joaquín Humberto Pinzón Güiza, IMC, bispo do Vicariato Apostólico de Puerto Leguízamo-Solano, desenvolve no artigo “Santidade. Ética do Bem-Viver”, publicado na edição 352 da revista Dimensão Missionária, dos Missionários da Consolata – Região da Colômbia.

A publicação, dedicada ao tema “Missão e Ética: Transformadora, interiorizada, vivida e pensada”, propõe entender a missão como um caminho de transformação pessoal e comunitária que encontra na ética uma expressão concreta do Evangelho e da construção do Reino de Deus.

A santidade como fundamento da missão

Inspirado na espiritualidade de São José Allamano, fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata, Dom Pinzón lembra que o ideal missionário começa com um convite exigente e profundamente evangélico: “Primeiro santos, depois missionários”.

Mais do que um lema institucional, essa frase resume uma maneira de entender a vocação missionária como um modo de vida íntegro, onde a relação com Deus, com as pessoas e com a criação se torna o fundamento do anúncio do Evangelho.

O autor explica que a ética não consiste apenas em distinguir entre o certo e o errado, mas em formar pessoas capazes de assumir com responsabilidade sua relação consigo mesmas, com os outros, com Deus e com o mundo. Dessa perspectiva, o missionário é chamado a ser uma testemunha confiável, cuja coerência de vida se torna o primeiro anúncio do Evangelho.

Fazer o bem… e fazê-lo bem

Retomando os ensinamentos de São José Allamano, o artigo destaca que a santidade se constrói no dia a dia por meio de pequenos gestos feitos com amor, responsabilidade e excelência.

O fundador da Consolata insistia que não basta fazer o bem; é preciso fazê-lo bem, como expressão de uma vida voltada para Deus e a serviço dos outros.

Essa ética do “bem viver” e do “bem fazer” define um estilo missionário marcado pela proximidade, pela humildade e pelo compromisso com a transformação das pessoas e de seus contextos, resumido em outra das frases emblemáticas de Allamano: “Missionários no coração, na mente e nas mãos”.

A missão se realiza no serviço à vida

Dom Pinzón lembra que a santidade nunca é uma conquista individual nem uma busca isolada pela perfeição pessoal. Pelo contrário, a vocação cristã encontra sua plenitude quando se coloca a serviço dos outros.

Seguindo o Evangelho, ele afirma que “nos tornamos santos para a missão”, de modo que a vida espiritual se transforma em serviço, proximidade e compromisso com quem mais precisa de esperança.

Essa experiência ficou gravada na memória de várias comunidades amazônicas, que reconhecem nos missionários e missionárias homens e mulheres cuja credibilidade vem justamente da coerência entre a vida deles e o que pregam.

O cuidado com a Amazônia, expressão de uma santidade integral

Uma das principais contribuições do artigo é a estreita relação entre santidade, missão e ecologia integral.

Em diálogo com a encíclica Laudato Si’ e o Documento Final do Sínodo para a Amazônia, Dom Pinzón afirma que uma autêntica espiritualidade missionária exige relações saudáveis com Deus, com as pessoas e com a natureza.

Nessa perspectiva, a Amazônia deixa de ser apenas um território geográfico para se tornar um sujeito vivo de memória, cultura, espiritualidade e relações, cuja proteção é uma responsabilidade ética e evangélica.

O autor lembra que o clamor da Amazônia — marcada pela violência, pelo extrativismo e pela degradação ambiental — interpela hoje toda a Igreja e exige uma resposta comprometida que promova o cuidado da Casa Comum e a defesa dos povos que nela vivem.

Uma reflexão em sintonia com o caminho sinodal da Igreja na Amazônia —

As reflexões de Dom Joaquín Pinzón se alinham com o horizonte pastoral da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), que promove uma Igreja com rosto amazônico, profundamente sinodal, intercultural e comprometida com a defesa da vida em todas as suas dimensões.

A proposta de uma “ética do bom viver” convida a entender que a missão não consiste apenas em anunciar o Evangelho, mas em encarná-lo por meio de relações justas, do respeito aos povos indígenas e do cuidado responsável com a criação.

Numa época em que a Amazônia enfrenta graves ameaças ambientais e sociais, esse chamado lembra que a santidade missionária se manifesta na capacidade de caminhar ao lado das comunidades, proteger a vida e construir esperança a partir dos territórios, tornando visível o Reino de Deus na história cotidiana dos povos amazônicos.