O primeiro encontro do ciclo “Conversando com o Coração Amazônico”, realizado na quinta-feira, 22 de outubro, reuniu representantes da Igreja e líderes indígenas para refletir sobre a história da missão na Amazônia peruana, os avanços no acompanhamento dos povos indígenas e os desafios que persistem na defesa de seus territórios, culturas e direitos. A iniciativa está sendo desenvolvida em preparação para a visita do Papa Leão XIV a Pucallpa, prevista para 15 de novembro.
A Igreja na Amazônia peruana continua refletindo sobre sua missão junto aos povos indígenas, reconhecendo os aprendizados de décadas de acompanhamento pastoral, educacional e social, bem como a necessidade de fortalecer seu protagonismo na vida eclesial e comunitária.
Nesse contexto, na quinta-feira, 22 de outubro, foi realizado o primeiro webinar do ciclo de debates “Falando com o Coração Amazônico”, sob o tema “A Igreja Amazônica: missão, presença e acompanhamento dos povos”. O encontro foi organizado pelo Vicariato Apostólico de Pucallpa, pelo Centro Amazônico de Antropologia e Aplicação Prática (CAAAP), pela REPAM Peru, pela Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA) e pela Cátedra da UNESCO, com o objetivo de criar um espaço de diálogo sobre a história, os desafios e as perspectivas da missão da Igreja junto aos povos indígenas.
O encontro insere-se nos preparativos para a visita apostólica do Papa Leão XIV a Pucallpa, no próximo dia 15 de novembro, um evento que representa uma oportunidade para dar visibilidade à realidade dos povos amazônicos e ouvir suas vozes, esperanças e preocupações.
Durante o discurso de abertura, Dom Augusto Martín Quijano Rodríguez, bispo do Vicariato Apostólico de Pucallpa, destacou que a visita do Santo Padre não diz respeito apenas a uma cidade, mas a toda a Amazônia. Além disso, convidou a reconhecer a missão como uma característica fundamental da Igreja e a valorizar o compromisso daqueles que dedicaram sua vida ao acompanhamento dos povos amazônicos.
O debate contou com os depoimentos de Monsenhor Gerardo Antonio Zerdín Bukovec, bispo do Vicariato Apostólico de San Ramón; da irmã Conchi López, da Companhia Missionária do Sagrado Coração de Jesus; e de Cecilio Soria, advogado e comunicador do povo indígena shipibo-konibo. Por meio de suas experiências, os participantes reconstruíram parte da história da presença eclesial na região e compartilharam reflexões sobre os desafios atuais.
Uma missão que reconhece o protagonismo dos povos indígenas
Em sua intervenção, Monsenhor Gerardo Zerdín relembrou sua experiência de acompanhamento aos povos indígenas e evocou a mensagem de São João Paulo II durante sua visita ao Peru em 1985, quando fez um apelo aos bispos da Amazônia para que cuidassem, respeitassem e acompanhassem essas comunidades.
O bispo destacou que, ao longo da história, a atenção pastoral da Igreja nem sempre concedeu aos povos indígenas o lugar que lhes cabe. Em alguns contextos, a ação pastoral concentrou-se principalmente nas cidades, enquanto as comunidades indígenas permaneceram à margem da vida eclesial.
Diante dessa realidade, ele destacou a necessidade de fortalecer uma pastoral indígena que integre o anúncio do Evangelho, a formação, o reconhecimento das línguas e culturas e a promoção de condições de vida dignas.
“Eles não podem ser apenas destinatários, mas protagonistas de sua evangelização”, afirmou ao se referir à importância de que os próprios povos indígenas participem ativamente da vida da Igreja.
Da mesma forma, insistiu que o acompanhamento deve se traduzir em ações concretas que contribuam para o bem-estar das comunidades, favoreçam seu desenvolvimento e permitam que seus membros encontrem oportunidades para viver com dignidade em seus territórios, sem serem obrigados a migrar por falta de alternativas.
Décadas de acompanhamento: educação, direitos e defesa da vida
Por sua vez, a irmã Conchi López compartilhou a experiência da Companhia Missionária do Sagrado Coração de Jesus, congregação que acompanha o povo shipibo-konibo na Amazônia peruana desde 1977.
Seu testemunho permitiu reconhecer o trabalho desenvolvido junto às comunidades em áreas como educação, formação em direitos humanos, fortalecimento das organizações comunitárias e promoção de iniciativas econômicas.
A religiosa lembrou que o acompanhamento missionário tem buscado responder às necessidades identificadas pelas próprias comunidades, por meio de processos educacionais e projetos de desenvolvimento nos quais a intenção não tem sido dirigir, mas sim acompanhar e formar.
Entre os avanços, destacou a crescente participação de homens e mulheres indígenas em espaços acadêmicos, profissionais e organizacionais. Atualmente, membros dessas comunidades exercem diversas profissões e contribuem para definir as prioridades de desenvolvimento de seus povos.
Ela também destacou o papel das mulheres indígenas, que, por meio de seu artesanato, de seus conhecimentos e da transmissão de suas línguas e tradições, fortalecem a economia familiar e mantêm viva a identidade cultural.
No entanto, ela alertou que persistem desafios importantes: a migração por motivos econômicos, as dificuldades de acesso a uma educação de qualidade, a perda progressiva das línguas indígenas, a discriminação e as ameaças contra os territórios ancestrais.
A essas problemáticas somam-se as invasões de terras, os derramamentos de petróleo, a mineração ilegal e outras atividades que colocam em risco a vida das comunidades e daqueles que defendem seus territórios.
A irmã Conchi ressaltou que a participação indígena deve ir além da mera presença em determinados espaços e garantir que os povos indígenas estejam presentes nos locais onde são tomadas as decisões que afetam seu futuro.
Nesse sentido, ela destacou que a visita do Papa Leão XIV constitui uma oportunidade para que suas preocupações sejam ouvidas e para fortalecer o compromisso da Igreja com a defesa de seus direitos e de sua dignidade.
A experiência indígena: uma Igreja que acompanha e forma líderes
A partir de sua experiência como membro do povo shipibo-konibo, Cecilio Soria apresentou uma visão sobre o acompanhamento da Igreja e sua contribuição para os processos educacionais, organizacionais e sociais das comunidades indígenas.
Ele relembrou o trabalho dos missionários que caminharam ao lado dos povos indígenas em diferentes momentos da história e destacou sua participação em iniciativas de formação, organização comunitária e defesa de direitos.
Entre suas lembranças, mencionou a obra de sacerdotes como Gastón Villanueva, cujo acompanhamento contribuiu para fortalecer espaços de encontro e organização entre as comunidades. Também destacou o papel das instituições e dos processos formativos que facilitaram o acesso de jovens indígenas ao ensino superior, promovendo a formação de profissionais comprometidos com seus povos.
Soria ressaltou, além disso, a importância das organizações indígenas na defesa territorial e na elaboração de propostas para o futuro da Amazônia. Nesse sentido, destacou a contribuição das mulheres shipibo-konibo, cuja arte e artesanato permitiram dar visibilidade à sua cultura dentro e fora do Peru.
Ao se referir aos desafios atuais da juventude, alertou que a falta de oportunidades econômicas e educacionais continua impulsionando a migração para as cidades e outros territórios, expondo muitos jovens a situações de vulnerabilidade.
Por isso, ele destacou a necessidade de superar as abordagens meramente assistencialistas e apostar em iniciativas sustentáveis que fortaleçam a autonomia das comunidades, promovam empreendimentos locais e gerem oportunidades para as novas gerações.
“O que precisamos pensar agora é no desenvolvimento econômico”, afirmou, ao insistir na importância de impulsionar alternativas produtivas que permitam aos jovens construir seu futuro sem ter que abandonar suas comunidades.
Seu testemunho destacou que o acompanhamento eclesial pode gerar frutos duradouros quando contribui para a formação de líderes, fortalece as capacidades comunitárias e reconhece os povos indígenas como protagonistas de seus próprios processos.
Rumo a uma Igreja sinodal e intercultural
No diálogo com os participantes, os palestrantes concordaram que um dos principais desafios da Igreja amazônica é avançar rumo a uma relação cada vez mais horizontal com os povos indígenas, reconhecendo seus conhecimentos, suas espiritualidades, suas línguas e suas formas de compreender o mundo.
Monsenhor Gerardo Zerdín convidou a repensar as expressões e categorias com as quais tradicionalmente se fala dos povos indígenas, apontando que algumas delas reproduzem visões eurocêntricas que dificultam a compreensão de suas próprias cosmovisões.
Em vez de manter uma separação entre “nós” e “eles”, propôs-se a construção de um senso de pertencimento compartilhado, no qual os povos indígenas que fazem parte da Igreja sejam plenamente reconhecidos como membros e protagonistas da comunidade eclesial.
Essa perspectiva converge com o caminho sinodal impulsionado pela Igreja, que convida a ouvir, dialogar e caminhar juntos, valorizando os dons e as experiências de todos os batizados e das comunidades que habitam a Amazônia.
Os participantes também destacaram a necessidade de fortalecer o trabalho coordenado entre os vicariatos, as organizações eclesiais, as comunidades indígenas e as instituições aliadas, a fim de responder de maneira integral aos desafios sociais, culturais, econômicos e ambientais da região.
A educação intercultural, a transmissão das línguas indígenas, a participação efetiva das mulheres e dos jovens, a defesa dos territórios e a geração de oportunidades econômicas foram apontadas como áreas prioritárias para avançar rumo a uma vida digna para os povos amazônicos.
A visita do Papa Leão XIV: uma oportunidade para ouvir a Amazônia
Ao refletir sobre a próxima visita do Papa Leão XIV a Pucallpa, os participantes do painel concordaram que esse evento deve ir além da celebração de um encontro e se tornar uma oportunidade para fortalecer os processos que as comunidades e a Igreja vêm construindo há décadas.
A irmã Conchi López expressou seu desejo de que o Santo Padre ouça as preocupações dos povos indígenas e contribua para dar visibilidade às ameaças que eles enfrentam, bem como às suas esperanças e propostas para o futuro.
Cecilio Soria, por sua vez, insistiu na importância de que as novas gerações tenham oportunidades educacionais e econômicas que lhes permitam permanecer em seus territórios, caso assim o desejem, desenvolver suas capacidades e contribuir para o bem-estar de suas comunidades.
Monsenhor Zerdín convidou a aprofundar a compreensão da Igreja, de modo que os povos indígenas não sejam considerados apenas destinatários da ação pastoral, mas membros ativos de uma comunidade que compartilha a fé e constrói caminhos a partir do diálogo intercultural.
O debate foi encerrado com um convite para continuar fortalecendo o acompanhamento da Igreja aos povos indígenas, reconhecendo os avanços alcançados e assumindo com responsabilidade os desafios pendentes.
Em preparação para a visita do Papa Leão XIV, o ciclo “Falando com o Coração Amazônico” busca manter aberto esse espaço de reflexão e encontro, para que a história, a palavra e as esperanças dos povos amazônicos continuem ocupando um lugar central na missão da Igreja.
Pois acompanhar a Amazônia significa caminhar ao lado de seus povos, defender a vida e contribuir para a construção de comunidades onde cada cultura seja respeitada, cada voz seja ouvida e as novas gerações possam viver com dignidade em seus territórios.