Sob o lema bíblico “Senhor, na tua luz vemos a luz” (Sal 36,10), os bispos da Venezuela publicaram uma Exortação Pastoral ao Povo de Deus ao encerrar a CXXVI Assembleia Ordinária Plenária do Episcopado Venezuelano, realizada num contexto marcado por grandes desafios sociais, políticos e econômicos.
No documento, datado de 23 de outubro de 2026, os pastores apresentam uma visão pastoral da realidade nacional e renovam seu compromisso de acompanhar o povo venezuelano, especialmente aqueles que sofrem as consequências da pobreza, da violência, da violação dos direitos humanos e da crise humanitária.
Os bispos ressaltam que a Igreja não pode ficar alheia ao sofrimento da população e reafirmam sua vocação de acompanhar as comunidades na busca por uma reconstrução integral da nação, a partir dos valores do Evangelho e do compromisso com o bem comum.
Uma realidade que interpela a Igreja e a sociedade
A Exortação Pastoral alerta para o empobrecimento generalizado, as dificuldades de acesso à saúde, a deterioração do sistema educacional, a perda do poder de compra das famílias e as consequências sociais da migração e do deslocamento.
Além disso, expressa preocupação com a situação dos presos políticos, civis e militares, a polarização política, as restrições às garantias democráticas e a necessidade de recuperar a plena vigência da Constituição.
Diante desse panorama, os bispos destacam que a dignidade humana deve ocupar um lugar prioritário nas decisões políticas, econômicas e sociais. Eles também lembram a importância de proteger os direitos fundamentais, acompanhar as vítimas de violações e fortalecer as redes de solidariedade que atendem às pessoas e famílias mais afetadas pela crise.
O documento dá atenção especial à situação de crianças, jovens, idosos, professores e profissionais de saúde, cujos direitos e condições de vida são afetados pelas dificuldades estruturais do país.
Diálogo, justiça e reconciliação para reconstruir a nação
Diante dos desafios da Venezuela, os bispos propõem avançar rumo a um acordo nacional baseado na verdade, no perdão, na justiça e na reconciliação. Nesse sentido, eles exortam os líderes políticos, econômicos, acadêmicos e sociais a superar as dinâmicas de polarização e a trabalhar pelo bem comum.
Eles também insistem na importância de garantir processos eleitorais livres e transparentes, instituições independentes, o respeito aos direitos políticos e o devido processo legal.
Como parte do seu compromisso pastoral, eles convidam a criar e fortalecer espaços de encontro, escuta e diálogo nas paróquias e comunidades, para contribuir para a reconciliação nacional e a consolidação de uma paz social duradoura.
Os pastores destacam, além disso, a vocação dos fiéis leigos de participar ativamente da vida pública e política, promovendo a recuperação ética das instituições e uma gestão honesta a serviço da cidadania.
A solidariedade como resposta às emergências
A Exortação reconhece os gestos de solidariedade demonstrados após os recentes terremotos que afetaram o país. Os bispos agradecem a resposta coordenada das comunidades, da Cáritas, das organizações sociais, das instituições nacionais e internacionais, das equipes de resgate e das igrejas irmãs.
Essa experiência, dizem eles, mostra que o sofrimento pode se tornar uma oportunidade para fortalecer os laços comunitários e promover uma resposta coletiva diante das emergências.
Entre as linhas de ação propostas, os bispos pedem que se fortaleçam as redes de caridade e assistência social da Cáritas nos níveis nacional, diocesano e paroquial, assim como as cozinhas comunitárias, as cantinas populares, as jornadas de atendimento médico e os programas de acompanhamento de crianças e idosos.
Da mesma forma, pedem condições que permitam uma maior participação das organizações da sociedade civil na assistência às populações afetadas por desastres naturais e outras situações de vulnerabilidade.
Na área da educação, propõem impulsionar um pacto nacional que garanta condições dignas para as instituições, contribua para reduzir a evasão escolar e reconheça o trabalho dos professores.
A esperança como caminho para a reconstrução nacional
Apesar das dificuldades descritas, os bispos reconhecem sinais de esperança nos esforços de solidariedade, em algumas melhorias nas condições de trabalho e comunicação, e nos avanços que consideram necessários para a restauração dos direitos dos cidadãos.
Por isso, convidam os venezuelanos a não desanimarem e a se unirem a um projeto de reconstrução nacional que seja inclusivo, democrático e ético, voltado para uma paz duradoura.
Ao concluir o documento, eles confiam o futuro do país à intercessão de São José Gregorio Hernández, Santa Carmen Rendiles e Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela, e convidam as circunscrições eclesiásticas a promoverem jornadas de oração pela nação, no âmbito do ano jubilar de Coromoto.
“Em Cristo somos um”, lembram os bispos ao adotarem o lema pontifício do Papa Leão XIV, como um convite para superar o individualismo e o desânimo por meio da fraternidade e do compromisso compartilhado.
A Exortação Pastoral é um apelo à Igreja e a toda a sociedade venezuelana para que trabalhem juntas pela defesa da vida, pelo respeito à dignidade humana e pela construção de um país onde a justiça, a solidariedade e a paz sejam os alicerces da convivência.
Da perspectiva de uma Igreja sinodal, próxima das realidades dos povos e comprometida com a promoção da vida, essa mensagem também convida a fortalecer os espaços de comunhão, escuta e colaboração eclesial a serviço daqueles que mais precisam de acompanhamento e esperança.