O segundo webinar da série «Falando com Coração Amazônico» reuniu representantes da Igreja na Amazônia para refletir sobre a inculturação da fé, as expressões espirituais dos povos e a construção de uma Igreja com rosto e coração amazônicos.
Como celebrar a fé a partir das culturas, das línguas e das espiritualidades dos povos amazônicos? Essa foi a pergunta que orientou o segundo webinar da série de debates “Falando com Coração Amazônico”, realizado na quinta-feira, 29 de outubro, com o tema “A liturgia amazônica: celebrar a fé a partir dos territórios amazônicos”.
O evento contou com a presença de Dom Martín Quijano, bispo do Vicariato Apostólico de Pucallpa (Peru); Dom Eugenio Coter, bispo do Vicariato Apostólico de Pando (Bolívia); o padre Diego Clavijo, missionário salesiano do Vicariato Apostólico de Yurimaguas (Peru); e o padre Luca Zanta, coordenador da visita do Papa Leão XIV a Pucallpa.
Durante o encontro, foram compartilhadas experiências pastorais e reflexões sobre a necessidade de construir uma Igreja que reconheça a diversidade cultural da Amazônia e permita que os povos expressem e celebrem sua fé a partir de suas próprias identidades, tradições e formas de entender a vida.
Uma liturgia que nasce da identidade dos povos
Em suas palavras de boas-vindas, Monsenhor Martín Quijano destacou que a celebração litúrgica deve integrar a identidade cultural dos povos, reconhecendo que não existe um único modelo cultural para viver e expressar a fé.
Ele ressaltou que o Evangelho é chamado a encarnar-se nas diferentes culturas, respeitando as particularidades de cada comunidade e mantendo a unidade da Igreja. Além disso, ele destacou a importância de avançar em uma proposta litúrgica que incorpore as experiências das comunidades amazônicas e permita que os ritos sejam uma expressão autêntica de sua identidade eclesial.
Por sua vez, Monsenhor Eugenio Coter aprofundou a importância de entender a liturgia como uma experiência comunitária de encontro com Deus. Com base na sua experiência pastoral na Bolívia, ele explicou que uma Igreja verdadeiramente inculturada precisa ouvir as comunidades, reconhecer seus conhecimentos ancestrais e compreender a diversidade dos povos indígenas, ribeirinhos, camponeses, afrodescendentes e urbanos.
“A celebração da fé é muito mais do que apenas introduzir alguns cantos ou trajes. Ela exige essa presença da Igreja e essa inculturação da Igreja”, disse ele.
Ele também destacou que a natureza e o território fazem parte da experiência de celebração amazônica, ao se tornarem espaços de encontro com Deus. Nesse sentido, propôs reconhecer os elementos da criação, os conhecimentos medicinais e os símbolos próprios de cada cultura como expressões que podem enriquecer a vivência da fé.
O Evangelho se encarna na língua, na cultura e na história
A partir de sua experiência missionária entre os povos indígenas, o padre Diego Clavijo compartilhou o caminho pastoral desenvolvido com as comunidades do povo achuar, destacando cinco elementos fundamentais para uma liturgia amazônica: a proximidade e a escuta, o reconhecimento das línguas maternas, o protagonismo dos ministros indígenas, o diálogo entre o Evangelho e as culturas e o compromisso com o cuidado da Casa Comum.
O missionário ressaltou que a inculturação começa com o respeito, a convivência e a capacidade de aprender com os povos. Nesse processo, as línguas originárias têm um papel fundamental, porque preservam a memória, os conhecimentos e a identidade das comunidades.
Ele também compartilhou algumas experiências de celebração, como o uso do masato como sinal de reconciliação e fraternidade, e a incorporação de símbolos e expressões culturais nos espaços litúrgicos.
“A experiência pastoral e litúrgica do povo achuar nos lembra que o Evangelho se encarna quando um povo pode celebrar Jesus Cristo em sua própria língua, cultura e história”, afirmou.
Além disso, ele insistiu que celebrar a fé implica assumir uma responsabilidade comunitária pela defesa dos territórios, dos rios, das florestas e da dignidade dos povos amazônicos.
A visita do Papa Leão XIV: ouvir, semear e celebrar
Um dos momentos de destaque do webinar foi a apresentação do padre Luca Zanta, que compartilhou alguns detalhes sobre os preparativos para a visita do Papa Leão XIV a Pucallpa, marcada para 15 de novembro de 2026.
Ele explicou que o Vicariato Apostólico de Pucallpa organizou essa visita em torno de três verbos: ouvir, plantar e celebrar.
O primeiro será marcado pelo encontro do Santo Padre com os povos amazônicos na lagoa de Yarinacocha. O segundo terá como símbolo o plantio de uma árvore de shihuahuaco na praça da catedral, como expressão do compromisso intergeracional com o cuidado da Casa Comum. Por fim, o terceiro momento terá como ponto central a celebração da primeira Eucaristia presidida por um pontífice na Amazônia peruana.
O padre Zanta também apresentou alguns elementos que expressam o diálogo entre a fé cristã e a cultura amazônica, como a elaboração de óleos sagrados com essências de plantas medicinais, entre elas o palo santo, a canela-do-mato, o matico e o palo rosa.
Ele também falou sobre o significado dos objetos litúrgicos que vão acompanhar essa celebração, como um cálice e uma patena feitos por artesãos locais, inspirados nas formas e nos materiais da tradição amazônica.
De maneira especial, ela explicou o significado dos desenhos das vestimentas litúrgicas criadas pela artista indígena Shonon Bensho, do povo shipibo-konibo, que propõe um espaço de encontro entre a memória espiritual dos povos e a fé cristã.
“Não se trata de colocar uma tradição ao lado da outra como se fossem realidades fechadas, mas de imaginar um espaço criativo no qual a cultura amazônica e a fé cristã possam se reconhecer, se ouvir e se enriquecer mutuamente”, foi uma das ideias compartilhadas durante sua intervenção.
O diálogo intercultural como caminho necessário para a Igreja
No diálogo final, os participantes do painel concordaram que a visita do Papa Leão XIV representa uma oportunidade para dar continuidade ao caminho de reconhecimento da Amazônia na vida da Igreja universal, dando visibilidade à riqueza de seus povos e às suas expressões de fé.
O padre Luca Zanta destacou que o diálogo intercultural não é opcional, mas uma condição necessária para a evangelização, evitando reproduzir práticas de imposição cultural e promovendo uma Igreja que acompanhe e proteja os povos indígenas.
Da mesma forma, o padre Diego Clavijo destacou a contribuição da diversidade amazônica para toda a Igreja, incluindo novas formas de entender os ministérios e a participação das mulheres e das famílias na vida comunitária.
O webinar terminou com um convite para reconhecer que a Amazônia não é uma realidade cultural homogênea, mas um território habitado por povos diversos, com espiritualidades, línguas, histórias e formas próprias de celebrar a fé.
O ciclo “Falando com o Coração Amazônico” é uma iniciativa promovida pelo Vicariato Apostólico de Pucallpa, com o apoio técnico do Centro Amazônico de Antropologia e Aplicação Prática (CAAAP), da REPAM Peru e da CEAMA, junto com outras instituições acadêmicas e eclesiais.
Para a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), esses espaços de reflexão ajudam a fortalecer o caminho rumo a uma Igreja com rosto e coração amazônicos, onde o Evangelho dialogue com as culturas, reconheça os saberes ancestrais e promova uma fé comprometida com a defesa da vida e o cuidado da Casa Comum.