Na cidade de Riberalta, o Vicariato Apostólico de Pando comemorou seus 84 anos de fundação com uma celebração marcada pela memória, pela gratidão e pelo compromisso renovado com a missão na Amazônia. A Eucaristia foi presidida por Dom Eugenio Coter, que proferiu uma homilia profunda, entrelaçando história, autocrítica e esperança.
Memória de uma Igreja nascida no meio da história amazônica
Durante sua intervenção, Dom Coter lembrou que as origens da fé nesta região remontam a meados do século XIX, em um contexto marcado pela febre da borracha. Foi em 1877 que se registrou a primeira visita episcopal, com a chegada do bispo Santiestevan, em um território onde a evangelização inicial foi impulsionada, principalmente, por leigos que habitavam as margens dos rios.
Essa presença eclesial inicial desenvolveu-se em meio a profundas tensões sociais. O bispo não evitou as sombras do passado, relembrando os episódios de exploração e violência contra os povos indígenas durante o auge da exploração da borracha. Nesse contexto, ele ressaltou a importância de reconhecer a história com honestidade, reafirmando, ao mesmo tempo, o papel da Igreja na defesa da dignidade humana.
Uma missão marcada por reviravoltas inesperadas
Um dos momentos mais significativos da homilia foi a evocação da origem da presença dos missionários de Maryknoll na região. Originalmente destinados ao Japão, sua missão mudou de rumo após o bombardeio de Pearl Harbor, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Esse fato os levou à Bolívia, onde assumiram a coordenação do Vicariato por décadas.
“O Senhor sabe escrever direito em linhas tortas”, expressou Dom Coter, destacando como até mesmo os acontecimentos mais dolorosos da história podem abrir caminhos inesperados para a missão.
Uma Igreja viva sustentada pelo povo
O Vicariato Apostólico de Pando foi erigido oficialmente em 29 de abril de 1942 pelo Papa Pio XII, abrangendo territórios do departamento de Pando e províncias como Vaca Díez, Iturralde e Ballivián.
Ao concluir sua mensagem, Dom Coter destacou com veemência o papel central dos leigos na vida da Igreja amazônica hoje. “Nossa Igreja está viva graças ao compromisso de centenas de leigos”, afirmou, reconhecendo seu trabalho em comunidades muitas vezes remotas e com escassa presença clerical.
Um apelo à renovação do espírito missionário
Este aniversário não foi apenas uma ocasião para recordar o passado, mas também para projetar o futuro. Em sintonia com o caminho da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), a celebração reafirma a urgência de uma Igreja com rosto amazônico: próxima, encarnada, sinodal e comprometida com a defesa da vida e dos territórios.
Aos 84 anos de sua criação, o Vicariato Apostólico de Pando continua sendo sinal de uma Igreja que, em meio a desafios históricos e atuais, permanece fiel à sua missão evangelizadora, caminhando ao lado dos povos da Amazônia e deixando-se interpelar por seus clamores e esperanças.




