Seminário sobre místicas e curas ancestrais da Vida Consagrada Indígena

A Vida Consagrada Indígena da América Latina e do Caribe se reuniu na Guatemala para compartilhar experiências, espiritualidades e saberes ancestrais no âmbito do Seminário “Místicas e curas ancestrais para nascer de novo”, um encontro organizado pela Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosas e Religiosos (CLAR), para aprofundar os caminhos de cura, memória, identidade e renovação da Vida Consagrada a partir da perspectiva dos povos indígenas.

Representando a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), participou a Irmã Elis Ribeiro dos Santos, SDP, religiosa indígena do povo Mura e membro da Congregação das Irmãs da Divina Providência. A Irmã Elis é formada em Pedagogia, tem mestrado em Antropologia Social e trabalha com articulação, assessoria e acompanhamento de projetos socioambientais ligados à Economia de Francisco e Clara.

Atualmente, ela coordena o projeto Casa Amazônica de Francisco e Clara, em Manaus (Brasil), e faz parte da Comissão de Ecologia Integral da Arquidiocese de Manaus e da Comissão de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) da sua Província Religiosa.

Um espaço para ouvir as vozes dos povos indígenas

O seminário reuniu religiosas, religiosos, leigas, leigos e padres de nove países, que refletiram sobre os desafios que os povos indígenas enfrentam atualmente: a ameaça e a apropriação indevida de seus territórios, a negação ou a folclorização de suas espiritualidades, os deslocamentos, as memórias de violência e as desigualdades que afetam especialmente mulheres, meninas, meninos e idosos indígenas.

Partindo dessa realidade, o encontro propôs entender a cura ancestral como um caminho que implica reconhecer as feridas históricas e atuais, recuperar a memória, ouvir os saberes dos povos e abrir espaços de diálogo intercultural. O seminário também levantou a necessidade de questionar formas de pensamento coloniais ainda presentes em comunidades e instituições, entendendo que “descolonizar também é curar”.

Durante o evento, foram compartilhadas experiências de mulheres indígenas e religiosas, realizadas cerimônias e espaços de troca de conhecimentos, e aprofundada a relação entre espiritualidade, território, memória e comunidade. As cerimônias maias permitiram que os participantes se aproximassem de outras formas de se relacionar com os ancestrais, agradecer, contemplar e reconhecer a Mãe Terra como um espaço sagrado de vida.

A Amazônia como inspiração para tecer novos caminhos

Um dos momentos do seminário foi marcado pela espiritualidade dos povos amazônicos e pelo convite para reintegrar a relação com a terra, a floresta e o próprio corpo, reconhecendo que o clamor dos pobres está profundamente ligado ao clamor de uma terra ferida.

A experiência do tecido foi apresentada como uma imagem para entender a vida a partir da inter-relação: diferentes fibras, experiências, memórias e sistemas de conhecimento se encontram para construir uma trama comum. Dessa perspectiva, os tecidos e bordados dos povos indígenas foram reconhecidos como códices vivos de uma espiritualidade que conseguiu permanecer nas práticas comunitárias, apesar dos processos históricos que tentaram negá-la.

O encontro terminou com um convite para continuar “despertando os olhares, intuindo as presenças e tecendo sonhos”, entendendo o “Nascer de Novo” não como um momento pontual, mas como um caminho permanente de transformação e compromisso ao lado dos povos indígenas.

Para a CEAMA, a participação da Irmã Elis Ribeiro dos Santos representa a presença e a contribuição da Amazônia nesses espaços de diálogo continental, onde as vozes, as espiritualidades e os conhecimentos dos povos indígenas enriquecem a busca por uma Igreja com rosto amazônico, intercultural e comprometida com o cuidado da Casa Comum.