No coração da Amazônia peruana, onde a selva guarda a memória dos povos e suas feridas, uma mulher decidiu resistir ao esquecimento. Zoila Ochoa, líder indígena da comunidade nativa Centro Arenal (Loreto – Peru), impulsiona a revitalização do MURUI-BUE, uma língua que há poucos anos estava à beira da extinção.
Até pouco tempo atrás, apenas uma pessoa falava essa língua ancestral. Hoje, graças ao seu compromisso, mais de 30 pessoas — crianças, jovens e adultos — recuperaram a língua como expressão viva de identidade, dignidade e pertencimento.
A língua como defesa do território
A jornada começou como uma resposta a uma ameaça concreta: a possível perda do reconhecimento territorial de sua comunidade. Sem língua nem práticas culturais visíveis, sua identidade como povo indígena era questionada.
Foi então que surgiu uma decisão coletiva: recuperar a língua para defender a vida.
“Para nossos pais, não nos ensinar o MURUI-BUE significava nos proteger da crueldade que eles haviam vivido. Mas chegou a hora de recuperá-la, porque é importante”, afirma Zoila.
Assim, a língua deixou de ser apenas um meio de comunicação para se tornar um ato de resistência diante de séculos de violência, exclusão e espoliação.
Uma escola que nasce da selva
Com recursos próprios e uma visão profundamente comunitária, Zoila fundou a Escola Autônoma MURUI-BUE, um espaço onde a educação se constrói a partir da cultura, da espiritualidade e da vida cotidiana do povo.
Lá, as crianças não aprendem apenas a falar sua língua, mas também a cantar e narrar sua história; cultivar a terra; reconhecer plantas medicinais; preparar pratos tradicionais; e cuidar da selva como um espaço sagrado
A escola rompe com os esquemas convencionais: não há notas nem diplomas formais. O aprendizado é medido na vida, na prática e na transmissão de conhecimentos.
“Cada um faz seu próprio diploma em seu caminho”, explica Zoila.
Protagonismo feminino e liderança comunitária
Um dos pilares dessa experiência é o fortalecimento da liderança das meninas. Em um contexto marcado por estruturas patriarcais, a escola promove que as novas gerações cresçam com voz, identidade e capacidade de defender seu território.
“Gostaria que elas se tornassem líderes, defendendo a cultura e levantando a voz contra as leis injustas”, afirma.
Essa abordagem se conecta com a urgência de construir comunidades mais justas, onde as mulheres sejam protagonistas dos processos de transformação.
Ecologia integral: cuidar da vida em todas as suas formas
A proposta educacional está profundamente ligada à ecologia integral. Zoila impulsiona a recuperação de sementes ancestrais, o reflorestamento de territórios degradados e a restauração de ecossistemas.
Por meio da Associação Cultural Ambiental IDO R+ÑO (“Mulher Semente”), ela promove o plantio de espécies nativas; a recuperação de solos; a proteção de plantas medicinais; e a criação de ambientes que favoreçam a vida animal
“A selva é uma universidade viva”, afirma ela, lembrando que todo conhecimento — inclusive o científico — tem raízes na natureza.
Curar a memória, reconstruir a dignidade
A recuperação do MURUI-BUE é também um processo de cura histórica. Zoila relembra os relatos de violência sofrida por gerações anteriores, especialmente durante a época da borracha, quando falar a própria língua era motivo de punição.
Recuperá-la hoje é recuperar a memória, a autoestima e a dignidade coletiva.
Uma experiência que interpela a Igreja amazônica
O testemunho de Zoila Ochoa encarna de maneira concreta os apelos da Igreja na Amazônia: uma Igreja com rosto indígena; uma evangelização inculturada; a defesa do território e dos povos; e o cuidado da Casa Comum
Sua experiência mostra que a educação, a cultura e a espiritualidade podem ser caminhos de profunda transformação.
Em um contexto em que muitas línguas indígenas estão em risco, seu trabalho é um sinal de esperança: uma semente que cresce lentamente, mas com raízes profundas.