No âmbito da edição nº 1 de 2026 da Revista CLAR, dedicada a “os novos rostos da pobreza na América Latina e no Caribe”, a teóloga indígena Mónica Benavides oferece uma reflexão profunda sobre a realidade dos povos originários e as múltiplas formas de empobrecimento que enfrentam no continente.
O artigo propõe uma compreensão ampla e crítica da pobreza, que vai além da carência econômica. Para os povos indígenas, a pobreza se manifesta como uma ruptura de laços: com o território, com a comunidade e com a identidade. É uma ferida histórica marcada pela colonização, pelo racismo estrutural e pela imposição de modelos econômicos extrativistas que continuam a despojar os povos de suas terras, saberes e modos de vida.
A partir dessa perspectiva, o texto convida a reconhecer a Abya Yala como um território vivo, diverso e profundamente espiritual, onde persistem memórias ancestrais, práticas comunitárias e formas de habitar o mundo que resistem à homogeneização cultural. No entanto, essa riqueza coexiste com dinâmicas de exclusão que levaram muitos povos à marginalização, à migração forçada e à perda de suas línguas e tradições.
A reflexão dialoga com o horizonte eclesial proposto por Querida Amazônia, que reconhece a riqueza cultural dos povos indígenas como um poliedro de múltiplas faces e denuncia as estruturas que buscam uniformizar e dominar a diversidade.
Um dos eixos centrais do artigo é a denúncia do racismo sistêmico e da criminalização de líderes indígenas que defendem seus territórios contra projetos extrativistas. Essa violência não é apenas física, mas também jurídica, midiática e cultural, reproduzindo lógicas coloniais que negam a autonomia dos povos.
Nesse contexto, o território surge como o núcleo da vida. Não é apenas um espaço físico, mas o lugar onde se entrelaçam a memória, a espiritualidade, a economia e a organização comunitária. Sua defesa é, portanto, uma defesa integral da vida.
Diante dessas realidades, os povos indígenas não apenas resistem, mas propõem alternativas concretas que questionam o modelo dominante. Entre elas, destacam-se:
- Economias comunitárias e eco-solidárias, baseadas na reciprocidade, no cuidado e no bem comum.
- Saúde holística, que integra saberes ancestrais e reconhece a relação entre corpo e território.
- Educação situada, que nasce do território, fortalece a identidade e promove a consciência crítica.
- Comunicação popular, que “circula a palavra” para preservar a memória e construir narrativas próprias.
- Arte e cultura, como expressão viva de resistência, cura e reconstrução do tecido social.
Essas propostas configuram um horizonte alternativo que coloca no centro a vida, a dignidade e a interdependência entre os seres humanos e a natureza.
O artigo conclui com um convite claro: superar a pobreza nos povos indígenas requer um novo pacto social baseado na justiça, na memória histórica e no profundo respeito à diversidade cultural e espiritual.
Da Amazônia e dos territórios da Abya Yala, este apelo interpela a Igreja e a sociedade como um todo: ouvir as vozes dos povos, reconhecer seus direitos e caminhar junto a eles na construção de um futuro onde a vida, em todas as suas formas, seja cuidada e defendida.