O acordo beneficia 1.373 pessoas afetadas desde a infância pela exposição a metais tóxicos provenientes do complexo metalúrgico de La Oroya. O cardeal Pedro Barreto, que por quase duas décadas acompanhou a luta da população, destacou que a reparação financeira representa um passo importante, embora não possa compensar totalmente os danos causados.
O cardeal peruano Pedro Barreto, SJ, ex-presidente da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), classificou como um “marco histórico” o acordo extrajudicial de 150 milhões de dólares alcançado nos Estados Unidos para indenizar 1.373 pessoas de La Oroya, nos Andes peruanos, afetadas desde a infância pela poluição gerada pelo complexo metalúrgico operado pela Doe Run.
O acordo, alcançado após quase duas décadas de litígio, põe fim a uma das ações civis mais prolongadas contra uma empresa multinacional por danos relacionados à poluição ambiental e à exposição a substâncias tóxicas em outro país.
“Este é um marco histórico”, afirmou o cardeal Barreto em declarações divulgadas pelo The Guardian. No entanto, ele alertou que a reparação financeira, por si só, não resolve as consequências que muitas das pessoas afetadas continuam enfrentando, especialmente aquelas que sofreram danos neurológicos durante a infância.
“O dinheiro não compensará o dano que sofreram, mas é um sinal de que foi feita justiça”, afirmou.
Uma luta pela vida e pela dignidade
A história de La Oroya tem acompanhado há anos o ministério pastoral do cardeal Barreto. Quando assumiu o cargo de arcebispo de Huancayo em 2004, ele passou a acompanhar de perto as comunidades afetadas pela poluição do complexo metalúrgico.
Diversos estudos realizados durante esses anos documentaram altos níveis de chumbo no sangue das crianças da localidade, além da exposição a outros contaminantes, como arsênico, cádmio e dióxido de enxofre.
A situação transformou La Oroya em um dos casos emblemáticos de poluição ambiental e dos efeitos sobre a saúde de populações vulneráveis na América Latina.
A defesa da população também teve um custo pessoal para o então arcebispo de Huancayo. Durante os anos em que acompanhou as comunidades, Barreto recebeu ameaças de morte e sofreu diversas formas de assédio relacionadas à sua posição diante dos impactos ambientais e sanitários da atividade metalúrgica.
“Foi um fato irrefutável que eu tenha sido ameaçado de várias maneiras”, lembrou o cardeal, que, no entanto, evitou colocar o foco em sua própria experiência e destacou que quem merece reconhecimento são as comunidades que, durante anos, suportaram as consequências da poluição.
“Tivemos de suportar apenas uma pequena parte do imenso sofrimento que elas enfrentam constantemente”, afirmou.
Justiça que coloca as vítimas no centro
O processo judicial teve início em 2007 com uma ação movida em nome de 17 crianças peruanas e, posteriormente, passou a envolver mais de 1.373 demandantes, muitos deles jovens adultos que haviam sofrido as consequências da exposição a metais pesados durante a infância.
O acordo prevê uma indenização que poderá chegar a pelo menos 100.000 dólares para cada um dos demandantes, de acordo com as informações divulgadas sobre o processo.
A empresa Doe Run Resources Corporation não admitiu responsabilidade nem irregularidades como parte do acordo.
Além da dimensão econômica, o caso representa um precedente significativo para as comunidades afetadas por atividades empresariais transnacionais e para o debate sobre a responsabilidade das empresas diante dos impactos sociais, ambientais e sanitários de suas operações.
Uma Igreja que acompanha o clamor dos povos
A experiência de La Oroya expressa uma das dimensões fundamentais do compromisso da Igreja nos territórios: ouvir o clamor das comunidades, acompanhar aqueles que sofrem e defender a dignidade de cada pessoa e da Casa Comum.
A trajetória pastoral do cardeal Pedro Barreto tem estado profundamente ligada a essa perspectiva. Seu serviço na Igreja peruana e sua participação nos processos eclesiais da Amazônia têm sido marcados pela defesa da vida, da justiça socioambiental e dos direitos das comunidades que enfrentam situações de vulnerabilidade.
Da CEAMA, este evento convida também a renovar o olhar sobre os desafios que os povos da Amazônia e de outros territórios da América Latina enfrentam diante de modelos econômicos que podem gerar graves impactos sobre a saúde, os territórios e as comunidades.
O caso de La Oroya nos lembra que a justiça ambiental não pode ser dissociada da justiça social e que, por trás de cada número, existem rostos, famílias, histórias e gerações que merecem ser ouvidas e receber reparação.
O acordo alcançado após 19 anos de luta constitui, assim, um passo significativo para as pessoas afetadas. Mas, como destacou o cardeal Barreto, a verdadeira justiça exige também evitar que novas gerações tenham de sofrer danos irreversíveis devido à poluição e garantir que o desenvolvimento econômico nunca seja construído às custas da vida e da dignidade dos povos.
A defesa da Casa Comum é também a defesa daqueles que nela habitam. E ouvir o clamor dos povos continua sendo um caminho indispensável para construir uma sociedade mais justa, solidária e fraterna.