Relatório do CIMI de 2025 alerta sobre o aumento dos conflitos territoriais, assassinatos, suicídios, mortalidade infantil e omissões do Estado brasileiro.
A violência contra os povos indígenas no Brasil se agravou ao longo de 2025. É o que revela o relatório “Violência contra os povos indígenas no Brasil: dados de 2025”, elaborado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que documenta um cenário marcado pelo aumento dos conflitos territoriais, assassinatos, suicídios, mortalidade infantil e invasões de terras indígenas.
O relatório alerta que essa realidade não pode ser entendida isoladamente dos ataques aos direitos territoriais dos povos indígenas e da estagnação dos processos de demarcação. Somam-se a isso as pressões políticas e econômicas para ampliar atividades como a mineração, a exploração de hidrocarbonetos e a construção de grandes obras de infraestrutura em territórios indígenas e suas zonas de influência.
169 conflitos territoriais em 23 estados
Um dos principais indicadores da situação é o aumento dos conflitos relacionados aos direitos territoriais. Em 2025, o CIMI registrou 169 casos em 23 estados brasileiros, que afetaram 143 territórios indígenas. Cerca de dois terços desses territórios são áreas cuja regularização ainda está pendente ou nas quais o Estado ainda não tomou as medidas necessárias para avançar na demarcação.
Das 1.443 terras e reivindicações territoriais indígenas identificadas no Brasil, 897 ainda aguardam alguma medida administrativa de regularização. Em 582 casos, o processo de demarcação ainda nem começou.
Embora tenham ocorrido alguns avanços ao longo de 2025 — como a publicação de relatórios de identificação, decretos declaratórios e o reconhecimento oficial de novos territórios —, o CIMI destaca que esses esforços ainda são insuficientes diante da magnitude das reivindicações indígenas.
A situação piorou com a persistência da disputa jurídica em torno da Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal, que inclui disposições questionadas pelas organizações indígenas e que, segundo o relatório, podem dificultar a proteção e a demarcação de seus territórios.
Invasões e destruição de territórios
A pressão sobre os territórios já reconhecidos também não diminuiu. O relatório registrou 210 casos de invasões, exploração ilegal de recursos naturais e danos ao patrimônio indígena, que afetaram pelo menos 151 territórios em 20 estados.
Chama especialmente a atenção o fato de que 88 desses territórios já tinham reconhecimento legal, o que mostra que a demarcação, por si só, não garante a proteção efetiva das comunidades contra invasores, garimpeiros ilegais, madeireiros e grileiros.
O Território Indígena Sararé, em Mato Grosso, é um dos exemplos mais graves. A expansão da mineração ilegal causou desmatamento, destruição de rios e mudanças profundas na vida das comunidades do povo Nambikwara.
A situação também ganha um forte valor simbólico: o território Sararé volta a aparecer na capa do relatório do CIMI quase três décadas depois que a mineração ilegal apareceu na capa de uma edição de 1996. A comparação mostra a persistência de um modelo de exploração que continua colocando em risco os povos indígenas e os ecossistemas amazônicos.
A violência também se reflete diretamente na vida das pessoas: 258 homicídios e 215 suicídios
Em 2025, foram registrados 258 homicídios de indígenas, contra 211 casos em 2024. Roraima, Amazonas e Mato Grosso do Sul concentraram o maior número de casos.
A esses assassinatos somam-se 38 tentativas de homicídio, 18 ameaças de morte, 33 casos de lesões corporais, 46 situações de racismo e discriminação étnico-cultural e 25 casos de violência sexual, entre outras formas de agressão.
O relatório também registra 215 suicídios de indígenas, superando os 208 registrados no ano anterior. O Amazonas registrou 77 casos, seguido pelo Mato Grosso do Sul, com 42, e pelo Roraima, com 37.
A situação afeta especialmente as novas gerações: 41% dos suicídios foram de indígenas entre 20 e 29 anos, enquanto outros 34% envolveram menores de 19 anos.
Esses dados mostram que a violência contra os povos indígenas não se limita a ataques físicos ou disputas por terras. Ela também se manifesta em condições sociais, econômicas, culturais e territoriais que afetam profundamente a vida e a esperança das comunidades.
Mais de mil crianças indígenas morreram antes dos cinco anos
Outro dado que preocupa bastante é a mortalidade infantil.
Em 2025, foram registradas 1.024 mortes de bebês e crianças indígenas com menos de cinco anos, contra 922 no ano anterior. Amazonas, Roraima e Mato Grosso concentraram os números mais altos.
Dessas mortes, 586 — 57% — foram relacionadas a causas consideradas evitáveis, entre elas gripe e pneumonia, doenças infecciosas intestinais e desnutrição.
Para o CIMI, esses dados mostram as profundas desigualdades que ainda existem no acesso a serviços básicos de saúde, água potável, saneamento, alimentação e atendimento médico adequado em muitos territórios indígenas.
Povos isolados enfrentam uma ameaça crescente
O relatório também dedica um capítulo aos povos indígenas em isolamento voluntário, cuja situação é especialmente vulnerável diante do avanço das atividades econômicas na Amazônia.
A Equipe de Apoio aos Povos Livres (EAPIL) do CIMI registra 119 casos de povos indígenas isolados no Brasil, dos quais apenas 55 têm confirmação oficial da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Em 20 territórios indígenas onde há registros de povos isolados, foram identificadas invasões e danos ao patrimônio. A expansão da mineração, o desmatamento, as estradas e outras atividades econômicas aumentam o risco para esses povos, que escolheram permanecer afastados do contato com a sociedade em geral.
Uma realidade que interpela a Igreja e a Amazônia
Os dados do relatório do CIMI são um alerta para toda a sociedade brasileira e latino-americana. A violência contra os povos indígenas está intimamente ligada à defesa de seus territórios, à proteção das florestas e dos rios e ao reconhecimento de seus direitos coletivos.
Para a Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), essa realidade relembra a urgência de caminhar ao lado dos povos indígenas e fortalecer uma Igreja com rosto amazônico, comprometida com a defesa da vida, a dignidade das pessoas e o cuidado da Casa Comum.
A Amazônia não pode ser vista apenas como um espaço de recursos naturais disponíveis para exploração. É um território de povos, culturas, espiritualidades, histórias e modos de vida que, ao longo de séculos, têm cuidado das florestas e dos rios.
A persistência da violência territorial mostra que a defesa dos povos indígenas e a proteção da Amazônia são inseparáveis. Onde o território é ameaçado, a vida também é ameaçada; e onde os direitos dos povos indígenas são violados, o equilíbrio de toda a Casa Comum fica em risco.
O relatório do CIMI convida, por isso, a renovar o compromisso com uma Amazônia onde os povos indígenas possam viver com dignidade, exercer plenamente seus direitos e continuar sendo protagonistas da proteção de seus territórios e da construção de um futuro de esperança.
Fonte: Conselho Indigenista Missionário (CIMI), “Violência contra os povos indígenas no Brasil: dados de 2025”.