O cinema amazônico continua abrindo caminhos no mundo. O filme “O Rio dos Espíritos”, dirigido pelo Coletivo Tawna, foi selecionado para a 57ª edição do Visions du Réel, que acontece em Nyon. Trata-se de um feito histórico: é a primeira vez que uma produção amazônica equatoriana entra nessa categoria em um dos festivais de cinema documentário mais relevantes do mundo.
Entre mais de 3.700 filmes inscritos, o documentário foi escolhido entre as 160 obras selecionadas e concorrerá na seção internacional de médias-metragens e curtas-metragens 2026, dentro da categoria Poussières d’empires.
Uma narrativa a partir de dentro da Amazônia
O filme foi produzido em parceria com a Honnold Foundation e a Fundação Kara Solar, no território do povo Achuar, localizado entre as províncias de Pastaza e Morona Santiago.
A partir daí, “El Río de los Espíritus” constrói um relato profundamente íntimo e político. Não apenas dá visibilidade às ameaças que as comunidades enfrentam — como a possível construção de estradas que fragmentam o território —, mas também propõe alternativas nascidas da própria Amazônia, onde a vida, a cultura e o equilíbrio com a natureza são centrais.
“Estamos felizes por vir da Amazônia apresentar nosso filme, que mais do que um filme, é a vida dentro de nossos territórios”, expressa Sani Montahuano, cofundadora do coletivo.
O rio como caminho de resistência e esperança
A história acompanha Luciano Peas, um jovem técnico Achuar que lidera um projeto inovador de transporte fluvial movido a energia solar. Sua iniciativa surge como resposta a uma ameaça concreta: a possível abertura de uma estrada que colocaria em risco a integridade da floresta e o tecido comunitário.
Nesse contexto, o rio não é apenas geográfico, mas um guia espiritual. Por meio de uma lenda ancestral sobre um peixe que habita suas profundezas, o filme entrelaça cosmovisão, tecnologia e território. As canoas solares surgem como uma alternativa concreta que conecta comunidades sem destruir o meio ambiente, propondo uma transição energética com identidade amazônica.
O documentário, assim, não se limita à denúncia. É também uma afirmação de que as soluções podem nascer dos povos, fortalecendo a autonomia, a paz e o cuidado com a Casa Comum.
Narrativas amazônicas que dialogam com o mundo
O Coletivo Tawna, fundado em 2017, é composto por artistas sáparas, kichwas e mestiços. Sua proposta é profundamente anticolonial e aposta na construção de narrativas próprias a partir dos territórios, combinando cinema, fotografia e arquivo vivo, bem como processos de formação com as comunidades.
Sua trajetória já alcançou palcos internacionais como a Bienal das Amazônias, a Bienal de Cuenca e festivais como o EDOC, o Toronto Film Festival e o Vancouver LQFF. Além disso, participaram do programa Storytellers da National Geographic com o documentário Allpamanda, reconhecido no EDOC. Em breve, levarão seu trabalho ao Pavilhão do Equador na Bienal de Veneza.
Um sinal de esperança para a Amazônia
A presença de “El Río de los Espíritus” no Visions du Réel não representa apenas uma conquista cinematográfica, mas um marco para as vozes amazônicas que buscam ser ouvidas no mundo.
Em sintonia com o caminho da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), essa experiência reafirma a importância de promover e acompanhar narrativas que nascem dos povos, que defendem a vida e que anunciam alternativas concretas diante das múltiplas crises que a região atravessa.
O cinema, nesse contexto, torna-se um espaço de encontro, memória e profecia. Uma janela da Amazônia para o mundo… e do mundo para o coração da selva.