A Amazônia entra em um momento decisivo. Não apenas por suas crises ambientais, econômicas ou políticas, mas porque nela se expressa uma questão muito mais profunda sobre o tipo de humanidade que queremos construir. As eleições que ocorrerão na Colômbia em 31 de maio, no Peru em 7 de junho e no Brasil em 4 de outubro de 2026, representam muito mais do que uma simples alternância de governos. Elas convidam os povos a se questionarem sobre que tipo de convivência, que modelo de sociedade e que valor atribuímos hoje à vida humana e não humana.
Existe uma narrativa dominante que tenta reduzir tudo a pólos opostos. Direita ou esquerda. Um partido ou outro. Amar ou odiar. Defender ou destruir. Essa lógica binária empobrece profundamente nossas sociedades. Ela nos acostuma a viver reagindo emocionalmente, sem processos mais profundos de discernimento. Aos poucos, deixamos de pensar comunitariamente e passamos a existir apenas a partir de inclinações individuais: “eu quero assim”, “não gosto deste”, “odeio aquele partido”, “este modelo me representa”, “este outro me ameaça”. E, enquanto isso, os grandes poderes continuam organizando o mundo.
O problema não é apenas político. É espiritual, cultural e humano. Porque quando uma sociedade perde a capacidade de se reconhecer como sujeito coletivo de sua própria história, torna-se mais vulnerável a toda forma de manipulação narrativa. Os grandes sistemas de comunicação, os poderes econômicos, as plataformas digitais e as estruturas históricas de privilégio sabem muito bem como produzir medo, rejeição e polarização. Sabem como manter os povos cansados, divididos e emocionalmente capturados.
Mas existe também outra narrativa. Mais silenciosa. Mais difícil. Mais lenta. Uma narrativa que integra, que busca dignidade e direitos para todos, e não apenas para alguns. Uma narrativa que reconhece que nenhuma sociedade se sustenta com a exclusão permanente dos pobres, dos povos indígenas, das mulheres, dos jovens, dos territórios e da natureza. É aí que as comunidades eclesiais precisam estar.
Essa mudança de mentalidade tem um custo enorme. Exige humildade pessoal, comunitária e institucional. Exige reconhecer que ninguém se salva sozinho e que nenhuma democracia pode sobreviver apenas administrando ressentimentos sociais. Exige abandonar certas comodidades ideológicas e aceitar que a convivência humana sempre será complexa, conflituosa e profundamente relacional.
Por isso, o pensamento de Silvia Rivera Cusicanqui ajuda a compreender que a América Latina nunca foi uma realidade homogênea nem reconciliada. Vivemos entre tensões, feridas coloniais e mundos sobrepostos. E justamente por isso, simplificar nossos países em narrativas eleitorais binárias acaba ocultando as raízes históricas da desigualdade, do racismo e da exclusão.
Em diálogo com Catherine Walsh, compreendemos também que a verdadeira transformação não ocorre apenas por meio de leis ou governos. Ela ocorre quando as pessoas voltam a se reconhecer como sujeitos históricos capazes de produzir comunidade, memória, justiça e futuro. As eleições são importantes, sim. São expressão legítima da soberania democrática. Mas uma democracia sem um povo consciente, sem tecido comunitário e sem horizonte ético pode facilmente se transformar em apenas uma administração elegante das desigualdades.
A Amazônia revela crua essas contradições. Lá, os pobres querem viver hoje. Querem trabalho hoje. Querem comida, segurança e dignidade hoje. E muitas vezes os únicos projetos concretos que chegam aos seus territórios são economias extrativistas, violências ilegais ou modelos de desenvolvimento que destroem lentamente as condições de vida futura.
Os Estados aparecem enfraquecidos, enquanto grandes interesses econômicos e geopolíticos disputam territórios, minerais, água, biodiversidade e rotas estratégicas.
Então surge uma pergunta difícil: quem decide hoje quem pode viver e quem pode morrer? Porque os poderes contemporâneos nem sempre matam diretamente. Muitas vezes deixam morrer. Abandonam. Descartam. Invisibilizam. Naturalizam o sofrimento. E talvez um dos sinais mais trágicos de nosso tempo seja precisamente este: a morte dos pobres deixou de escandalizar suficientemente o mundo.
Que reviravolta da vida é esta, em que tantos morrem não porque querem morrer, mas porque existem poderes que consideram normal que os pobres sejam sacrificáveis.
Por isso, as eleições de 2026 precisam ser interpretadas também a partir de uma dimensão ética e espiritual. Não para que a Igreja se transforme em partido político, mas para que as comunidades eclesiais ajudem a sustentar a consciência crítica, a humanidade compartilhada e a esperança histórica. A missão eclesial não é alimentar polarizações, mas lembrar constantemente que toda política perde legitimidade quando deixa de cuidar da vida.
Talvez, quando chegar o final de 2026, possamos voltar a este texto e compreender melhor quais caminhos nosso continente decidiu reforçar. Se optamos por aprofundar modelos que geram descarte e sacrifício, ou se começamos lentamente a construir projetos capazes de gerar dignidade compartilhada.
Porque resistir não significa apenas opor-se. Resistir é também recusar-se a aceitar que a morte dos pobres seja considerada normal. Resistir é defender a possibilidade de que nossos povos ainda possam voltar a imaginar um futuro onde a vida de todas as pessoas humanas e não humanas valha mais do que qualquer projeto de poder.
Por: Marcelo Lemos, Secretário Executivo da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA). Doutorando em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional pela Universidade de Brasília e em Sociologia e Antropologia pela Universidade Complutense de Madrid.