Marilez Tello Imaina: comunicar a partir da Amazônia para defender a vida, a memória e o território

A jornalista indígena kukama e defensora ambiental Marilez Tello Imaina transformou a comunicação comunitária em uma ferramenta de resistência, memória e defesa dos povos amazônicos do Peru. Há 17 anos, sua voz acompanha as lutas das comunidades indígenas por meio da Rádio Ucamara, emissora localizada na cidade de Nauta, na Amazônia peruana.

Em entrevista à ADN Celam, Tello Imaina compartilhou sua experiência de vida, sua trajetória rumo à comunicação e os desafios de exercer um jornalismo comprometido com a defesa dos territórios, a revitalização cultural e a denúncia das violências que afetam a Amazônia.

Uma vocação nascida do serviço

Embora inicialmente sonhasse em estudar biologia, as dificuldades econômicas da família a levaram por outros caminhos. Após concluir o ensino médio, ela trabalhou e posteriormente estudou enfermagem técnica no Instituto Tecnológico de Nauta. No entanto, seria sua proximidade com a vida pastoral da Igreja Católica que marcaria o início de sua experiência na área da comunicação.

Enquanto participava como catequista em sua comunidade, foi convidada pelo então pároco de Nauta, o atual bispo do Vicariato Apostólico de Iquitos, Dom Miguel Ángel Cadenas, para integrar a Rádio Ucamara, emissora que estava sendo reativada após um período de fechamento.

O que começou como um pequeno programa de orientação em saúde voltado para mães e mulheres acabou se transformando em uma profunda vocação pela comunicação comunitária. Mais tarde, ela passou por programas musicais e, posteriormente, ingressou na área de notícias, onde descobriu a importância de narrar a realidade das comunidades amazônicas a partir de suas próprias vozes.

“Eu queria falar sobre o que acontecia aqui, sobre os temas locais, sobre a comunidade”, lembra ela.

Comunicação a serviço dos povos amazônicos

Com o passar dos anos, a Rádio Ucamara tornou-se um espaço de escuta, denúncia e acompanhamento para as comunidades indígenas e ribeirinhas. A emissora começou a dar visibilidade a questões relacionadas à saúde, educação, abandono estatal e, especialmente, aos impactos da indústria petrolífera na Amazônia.

Marilez lembra-se de ter crescido vendo como o petróleo contaminava os rios, enquanto a população convivia com essa realidade como se fosse algo normal. Desde então, a rádio assumiu o desafio de documentar derramamentos de petróleo, contaminação ambiental e violações dos direitos humanos.

“Comunicar a partir do território é dizer: aqui estamos e isso está acontecendo conosco”, afirma.

O trabalho jornalístico não tem sido isento de riscos. A jornalista relata que enfrentaram ameaças, pressões e tentativas de intimidação devido às denúncias feitas pela emissora. No entanto, ela considera que essas dificuldades fortalecem ainda mais o compromisso daqueles que defendem a vida e o território amazônico.

Revitalizar a língua e a memória indígena

Uma das maiores contribuições da Rádio Ucamara tem sido o fortalecimento da identidade cultural do povo kukama e a revitalização de sua língua e memória ancestral.

Para Marilez, a comunicação não apenas informa, mas também preserva os conhecimentos dos povos indígenas e permite transmitir a memória dos avós às novas gerações.

“Aprendemos a valorizar as coisas que muitas vezes não aparecem nos grandes meios de comunicação”, destaca.

A partir do rádio, as comunidades podem contar suas histórias, compartilhar conhecimentos tradicionais e reafirmar o orgulho de pertencer aos povos originários da Amazônia.

“Ser indígena é algo que deve ser visto com orgulho”, afirma.

Mulheres amazônicas que contam sua própria história

Como mulher indígena e comunicadora, Marilez também destaca a necessidade de as mulheres amazônicas ocuparem espaços de voz e liderança nos processos de comunicação.

“Durante anos falaram por nós, mas ninguém conhece melhor nossa realidade do que nós mesmas”, afirma.

Nesse sentido, ela incentiva as novas gerações a utilizarem ferramentas como o rádio, os celulares e as redes sociais para documentar as histórias de seus povos e denunciar as ameaças que os territórios amazônicos enfrentam.

Além disso, ela insiste na importância de manter a autenticidade cultural e não renunciar à própria identidade para serem ouvidos em outros espaços.

A Igreja e o acompanhamento dos povos amazônicos

Marilez reconhece o papel histórico que a Igreja Católica tem desempenhado no acompanhamento das comunidades indígenas amazônicas, especialmente em territórios onde o Estado permanece ausente.

“A Igreja tem caminhado com o povo”, destaca, ressaltando o apoio pastoral, jurídico e humano prestado às comunidades diante de empresas extrativistas e atores ilegais.

No entanto, ela também expressou preocupações sobre as condições de trabalho de muitos comunicadores comunitários ligados à mídia eclesial, que, em muitas ocasiões, trabalham em condições precárias e como voluntários.

Apesar disso, ela considera fundamental que a Igreja continue fortalecendo a formação de comunicadores indígenas e apoiando as rádios comunitárias amazônicas.

“Não para nos dizer o que temos que fazer, porque nós já sabemos o que temos que fazer, mas para continuar oferecendo ferramentas e espaços para contarmos nossa própria história”, conclui.

A experiência de Marilez Tello Imaina reflete o papel essencial da comunicação comunitária na Amazônia: uma comunicação que defende a vida, protege a memória dos povos e acompanha a luta pela justiça e pelo cuidado da Casa Comum.