Educação que nasce do território: professores da Amazônia fortalecem a interculturalidade na tríplice fronteira

Um workshop em San Felipe, no Vicariato Apostólico de Inírida, reuniu educadores da Colômbia, do Brasil e da Venezuela para impulsionar a Educação Intercultural Bilíngue como caminho de identidade, equidade e futuro para a Amazônia.

De 30 de março a 1º de abril, a comunidade de San Felipe, no Vicariato Apostólico de Inírida (Colômbia), foi palco de um importante encontro formativo que reuniu professoras e professores da tríplice fronteira amazônica entre Colômbia, Brasil e Venezuela. Este workshop teve como objetivo refletir, fortalecer e projetar a Educação Intercultural Bilíngue (EIB) como uma resposta concreta às realidades e aos desafios do território.

O espaço é fruto de um processo de articulação impulsionado desde o ano anterior entre a Rede de Educação Intercultural Bilíngue Amazônica (REIBA), Fe y Alegría e a Equipe Itinerante. Essa aliança surgiu da necessidade de unir esforços para acompanhar de forma mais próxima e eficaz as comunidades amazônicas em seus processos educacionais.

Durante o ano anterior, essas organizações realizaram visitas a diversas comunidades, nas quais participaram professores e membros das comunidades locais. Esses encontros permitiram ouvir diretamente suas necessidades, compreender as condições em que se desenvolve o trabalho educacional e dar visibilidade aos principais desafios. Entre eles, destacou-se a urgência de fortalecer a formação docente, o acompanhamento pedagógico, a valorização do papel do educador e a melhoria das condições de infraestrutura e materiais.

A partir desse diagnóstico, foi elaborado um relatório que deu origem à organização do workshop em San Felipe, concebido como uma resposta concreta para avançar em direção a propostas educacionais pertinentes e contextualizadas.

O encontro foi realizado em conjunto pelas organizações parceiras, com a participação de Sabrina Burgos, em representação da Fe y Alegría Colômbia; da Ir. Lisette Escárate, da Lic. Sandra Robilliard e do Lic. Alfonso Franco pela REIBA; do P. Edison Quintero, SJ, pároco de Puerto Inírida; e do Lic. Getulio Gómez, juntamente com o Ir. João de Castro, SJ, da Equipe Itinerante. Além disso, contou-se com a valiosa contribuição de professores indígenas como Brenda Landaeta, de nacionalidade Ñengatu, e Ignacio Cardoso, do povo Jivi, provenientes do Vicariato Apostólico de Puerto Ayacucho, Venezuela.

Um papel fundamental no planejamento e desenvolvimento do workshop foi desempenhado pela Sra. Sandra Robilliard, assessora de EIB da REIBA, cuja experiência permitiu criar um espaço dinâmico, participativo e profundamente contextualizado, favorecendo tanto a análise da realidade educacional quanto a projeção de melhorias concretas.

A participação foi diversificada e representativa da riqueza cultural amazônica. A maioria dos professores era proveniente da Venezuela, dos níveis fundamental, médio e agrícola, juntamente com educadores de comunidades colombianas vizinhas e uma delegação do Brasil composta por uma diretora, duas professoras e uma religiosa da comunidade de Cucuí. Essa diversidade consolidou um verdadeiro espaço de intercâmbio intercultural, onde conhecimentos, experiências e desafios foram compartilhados a partir da realidade de cada povo.

A Educação Intercultural Bilíngue se reafirmou como um eixo fundamental para a região. Mais do que um modelo pedagógico, é uma aposta no reconhecimento da diversidade cultural e linguística, promovendo a aprendizagem em línguas indígenas e fortalecendo a identidade de meninas, meninos e jovens.

Nos contextos amazônicos, a EIB é uma necessidade urgente e um direito fundamental que contribui para colmatar lacunas históricas e construir uma educação mais inclusiva e equitativa.

Da mesma forma, destacou-se seu impacto nas novas gerações, ao permitir que cresçam com uma identidade sólida, orgulhosas de suas raízes e com ferramentas para interagir em um mundo cada vez mais interconectado. Aprender a partir da língua materna não apenas melhora a compreensão, mas fortalece o vínculo entre a escola e a comunidade.

Um dos pilares centrais abordados no workshop foi a preservação das culturas indígenas: línguas, tradições, conhecimentos e cosmovisões. A EIB promove o diálogo entre saberes ancestrais e conhecimentos científicos, reconhecendo que a aprendizagem é diversa e que cada cultura traz uma visão única do mundo. Em um contexto global onde muitas línguas correm risco de desaparecer, essa proposta educacional se torna uma ferramenta fundamental para sua revitalização.

O workshop de San Felipe representa, assim, um passo significativo no fortalecimento da educação na Amazônia, em sintonia com o caminho impulsionado pela Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), que promove uma Igreja com rosto amazônico, comprometida com a vida, a cultura e os direitos dos povos.

O desafio continua: consolidar processos educacionais que nasçam do território, respondam às suas realidades e formem novas gerações com identidade, conhecimento e compromisso com suas comunidades e com a Casa Comum.