A líder indígena amazônica e ex-presidente da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), Patricia Gualinga, compartilhou sua experiência como membro do Fórum Permanente das Nações Unidas para Questões Indígenas, destacando a relevância desse espaço internacional para dar visibilidade às realidades enfrentadas pelos povos indígenas em diferentes regiões do mundo.
Gualinga, que faz parte dos 16 especialistas independentes que compõem o Fórum e representa a América Latina e o Caribe, explicou que esse órgão constitui uma plataforma fundamental para que os povos indígenas apresentem publicamente suas preocupações, denúncias e propostas perante o sistema das Nações Unidas e os governos.
“O Fórum Permanente é um espaço onde os povos indígenas vêm para expressar abertamente as situações que vivem em cada um de seus países. Aqui são ouvidas suas demandas, suas preocupações e também suas propostas”, afirmou.
Durante a presente sessão, foram abordados temas como a saúde dos povos indígenas, os direitos humanos, as mudanças climáticas e outras questões prioritárias para as comunidades indígenas. Delegações provenientes de diferentes partes do mundo tiveram a oportunidade de expor, em breves intervenções, as realidades que enfrentam em seus territórios.
Denúncias que exigem respostas
Patricia Gualinga destacou que uma parte significativa das intervenções foi marcada por denúncias relacionadas a atividades extrativas, violações dos direitos humanos, impactos ambientais e violações dos direitos coletivos dos povos indígenas.
“É lamentável ouvir que, em muitos países, se repetem situações que prejudicam os direitos dos povos indígenas. Este espaço permite dar visibilidade ao que está acontecendo e formular recomendações para que essas realidades sejam atendidas”, afirmou.
Como parte de seu trabalho, os membros do Fórum analisam as intervenções das delegações, realizam reuniões bilaterais com governos e organizações e elaboram recomendações que posteriormente são encaminhadas aos órgãos das Nações Unidas e aos Estados.
A líder amazônica expressou sua esperança de que as recomendações que surgirem desta sessão contribuam para fortalecer a proteção dos direitos indígenas e, acima de tudo, que haja vontade política para implementá-las.
“O mais importante é que os governos tenham a vontade de cumprir e aplicar as recomendações. Caso contrário, as mesmas questões de violações dos direitos humanos continuarão se repetindo”, advertiu.
Uma voz amazônica no sistema das Nações Unidas
Gualinga destacou a importância de ser a primeira mulher amazônica a integrar o Fórum Permanente, uma responsabilidade que assume com o compromisso de levar as preocupações e propostas dos povos indígenas aos espaços de decisão internacional.
“Temos a responsabilidade de ouvir todas as informações trazidas pelos povos indígenas do mundo e garantir que suas preocupações sejam refletidas nas recomendações que emitimos”, explicou.
Além disso, ela observou que o Fórum se tornou um espaço fundamental para denunciar o descumprimento de sentenças, violações de direitos territoriais, impactos ambientais e problemas relacionados à saúde e ao bem-estar das comunidades indígenas. Ao mesmo tempo, permite compartilhar experiências bem-sucedidas que podem inspirar políticas públicas e ações de proteção em outros contextos.
O papel da Igreja e das redes eclesiais
Patricia Gualinga também valorizou a presença da Igreja neste espaço internacional, particularmente por meio da Rede Eclesial Pan-amazônica (REPAM) e de outras organizações eclesiais que acompanham os povos indígenas.
“A Igreja é uma aliada muito importante porque ajuda a dar visibilidade ao que está ocorrendo em nossos territórios e pode exercer influência para que não haja retrocessos em matéria de direitos humanos”, afirmou.
Segundo ela, a participação de organizações eclesiais permite fortalecer os processos de advocacy e ampliar o alcance das denúncias e propostas que surgem dos territórios amazônicos.
Além disso, ela lembrou que todas as intervenções realizadas no Fórum são traduzidas para os idiomas oficiais das Nações Unidas e divulgadas internacionalmente, o que contribui para amplificar a voz dos povos indígenas e gerar maior atenção sobre as problemáticas que enfrentam.
Incidência em defesa dos direitos
Para a ex-presidente da CEAMA, uma das maiores contribuições do Fórum Permanente é sua capacidade de conectar os povos indígenas a organismos internacionais, governos, organizações da sociedade civil e atores eclesiais comprometidos com a defesa dos direitos humanos.
“Dar visibilidade ao que ocorre nos territórios é fundamental. Também o é gerar alianças e construir pontes entre aqueles que trabalham pela justiça, pela proteção dos povos indígenas e pelo cuidado da Casa Comum”, concluiu.
A participação de Patricia Gualinga no Fórum Permanente das Nações Unidas reafirma a importância de que as vozes amazônicas estejam presentes nos espaços internacionais onde se discutem e definem políticas que impactam diretamente a vida dos povos indígenas e o futuro dos territórios que habitam.


